Os grandes Mestres

Carlos F. de Paula Neto

Profª Zilda Kaplan Rubinsky

Um fato específico me marcou muito, apesar de não ter sido divertido. Em 1960, segunda série ginasial, estudávamos Latim com dona Zilda Kaplan. Seguramente, na época, ela já era casada com o doutor Samuel Rubinsky, conhecida figura de nossa cidade, que também lecionou no Culto. Dona Zilda foi uma das professoras que mais me cativaram, pela sua calma, serenidade e extrema educação. Era filha, se bem me recordo, de um  destacado comerciante de Campinas, o Sr. Ela Kaplan, do ramo de móveis. Naquela época, o cinema explorava demais os temas da II Guerra Mundial, ainda frescos na memória das pessoas (quinze anos, somente, se haviam passado, desde o fim da Guerra). Esses filmes nos fascinavam, aos garotos particularmente. Num dos intervalos de aula, alguém de minha classe desenhou na lousa uma suástica enorme e escreveu frases em um suposto alemão, frases, aliás, que se viam e se ouviam muito nos filmes. Em sua inocência dos 12 ou 13 anos, penso que ele nem tinha a idéia do que estava fazendo e, tampouco, de que justamente aquele intervalo antecedia a uma aula da dona Zilda, cuja família havia sofrido os horrores da perseguição aos judeus, na Europa. Ao entrar na sala (costumo dizer que Dª Zilda não andava, ela singrava...tamanha era a sua delicadeza ao andar), ela teve de reparar no desenho e nas frases da lousa. Transtornou-se  momentaneamente, sentou-se, fez a chamada, e delicadamente solicitou que alguém apagasse a lousa, coisa que, aliás, não era do seu costume. Notávamos que algo estava errado com ela. Após uma reflexão de minutos, e um silêncio terrível que se seguiu, dona Zilda iniciou uma explanação sobre o que o nazismo significou para o mundo e especialmente para o seu povo. Pena que, na época, não se tinha a chance de perpetuar, em fita gravada, aquele sublime depoimento. Arrancou lágrimas até dos mais desinteressados no assunto. Muitos de nós, acredito, nunca haviam tido a chance de ouvir coisas tão reais e comoventes, ocorridas havia tão pouco tempo. Naquele dia, não tivemos uma aula de Latim. Tivemos uma aula de vida. Uma lição de sobrevivência.

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Na festa do Culto, em 1998 (125 anos), me encontrei com Dª Zilda Kaplan,  quase que por acaso. A festa já estava no fim, muita gente já havia saído... me encontro com um amigo (Nelson Ferrão Costallat), ex-aluno e meu colega de emprego na Singer. Papo vai e vem, me disse que havia estado com ela naqueles minutos... eu, avidamente, lhe pedi me informasse o caminho e ele me indicou.. lá fui eu à caça da querida mestra... deparei-me com ela, sentada em meio a muita gente, numa mesa quase inatingível... fui circulando em volta e ela me viu... anos se haviam passado... mas ela fincou os serenos e lindos olhos azuis em mim, como se já estivesse me seguindo pelo caminho... até que cheguei a ela. Mesmo sentada, abracei-a carinhosamente e a beijei na face... no mesmo instante ela me disse "olá, meu caro Carlos de Paula, que bom te rever...". Foi difícil conter uma lágrima que teimava em escorrer pela face. Conversamos uns dez minutos e ao vê-la ali, na minha frente, falando alegremente, apesar de estar visivelmente cansada e sem negar as marcas da velhice, foi como retornar no tempo... e eu então, às vezes, conseguia vê-la daquela forma, como a conheci na época da escola.  Dois anos mais tarde, caminhava eu por um Shopping da cidade, numa noite quente, aguardando pacientemente que minhas “três mulheres" me avisassem que já haviam terminado as infindáveis compras, quando olho para um dos corredores opostos e vejo uma senhora caminhando só, com auxílio de um "andador" ( não sei como se chama, ao certo, aquele aparelho que se parece com uma mesinha de quatro pernas ). Seria uma senhora qualquer a não ser que, mesmo de longe, percebi que me era familiar. Acelerei o passo e fui me aproximando, me certificando de que era mesmo a Dª Zilda. Foi uma alegria poder revê-la, mas o filho já a aguardava a uns passos dali para levá-la de mim. Foi a última vez que a vi. A idade furtou dela o caminhar notório, como bem disse meu colega Guilherme Nucci, os pés voltados um pouco para dentro, os sapatos marrons de salto baixo, porém não lhe furtou  aquele olhar luminoso, tão cativante. Na festa do Alberto Krum, em 2000, eu imagino que ela não foi, mas pude bater um prazeroso papo com a Lilian, sua filha que reside em Israel e que estava por aqui, de férias.

 

Prof. Jacques Martins 

Quero relembrar aqui do meu caro professor Jacques, que nos ministrava Inglês nos idos de 1962/66. O sr. Jacques era uma figura interessante, exótico até. Era de baixa estatura e usava sapatos com saltos e solas bem grossas. Diziam que era complexo, para se parecer mais alto. Sempre de terno, aparência calma e um ar de poucos amigos. Exigia muita disciplina e respeito de todos nós. Tinha várias manias que nos divertiam: costumava ficar de costas para a sala, com a testa encostada na lousa, e ficava minutos rolando a cabeça de um lado para outro. Às vezes, afastava a testa e batia de novo contra a lousa. E isso ele fazia dando aula e falando normalmente. Às vezes ouvia uma resposta a uma questão nesta posição. Quando a vítima titubeava, ele falava de lá, de costas, com a voz meio abafada: “Vamos garoto, você sabe... você sabe... Vai garoto!” Quando se virava de frente, encontrava sempre uns dois ou três caras de mão erguida, querendo responder à questão no lugar do outro, talvez na tentativa de salvá-lo do suplício. Ao que ele dizia: “Podem deixar, podem deixar que ele sabe!”. Por vezes, ia até o fundo da sala e quase sempre achava um pedaço de papel amassado no chão. Vinha então chutando aquele papel pela sala toda até bem perto do lixo, junto à sua mesa. Aí se abaixava, pegava o papel e jogava no cesto. Eu percebia que, sem dúvida, ele simpatizava comigo, visto que felizmente aquela matéria eu tirava de letra. Na época eu já costumava ler revistas norte-americanas, como a Time e a Newsweek. Me deparei um dia com uma coluna que versava sobre a língua inglesa no uso técnico, e eu sabia que ele era muito bom nisso, traduções de publicações técnicas, por exemplo. Correndo, após uma aula, mostrei a ele e lhe dei a revista. Conversamos algum tempo e  só... mas eu senti a grande pessoa que ele era e, literalmente, "ganhei" sua simpatia.  Anos depois, por volta de 1975, eu, trabalhando em uma empresa multinacional de Campinas, deparei-me com ele na portaria da firma logo cedo. Saudoso em revê-lo, fui conversar com ele e me reconheceu prontamente. Dizia estar lá por causa de uma vaga que havia surgido, para um tradutor de inglês técnico (ele era especialista nisto). Semanas depois me informaram que ele havia sido recusado para o cargo. Falando com o encarregado da seleção de pessoal, na época, ele me disse: “Aquele cara foi meu professor de Inglês e me fez repetir um ano na escola. Agora dei-lhe o troco!”. Difícil imaginar como devo ter me controlado naquele instante, diante desta atitude. Talvez tenha sido até benéfico para ele não ter sido aceito. Com sua competência e experiência, fora o fato de ser um grande mestre e grande pessoa, ele deve, sem dúvida, ter atingido seus objetivos de outra forma. Não sei ao certo se ele ainda se encontra entre nós. Nem sei se terei a chance de revê-lo. Espero ansiosamente que sim. ( N.A. - O prof. Jacques já é falecido.) 

 Outras grandes lembranças

É como voltarmos no tempo. Às vezes, quando estou escrevendo para este site (o site do SACC, na época da Festa de 1998), me sinto como se estivesse estudando. Gostaria de prestar uma homenagem às figuras que mais nos influenciaram naqueles anos de 60-70: nossos professores. Uns já se foram, mas aquelas imagens nunca desaparecem. Os que ainda permanecem, privilegiados por poderem participar da Festa dos 125 anos do “Culto à Ciência”, sem dúvida mudaram muito com o passar do tempo. Talvez alguns nem sejam reconhecidos de imediato. A maior parte deles nunca mais vi, desde que saí de lá, em 1965.

Hilton Federici, um dos grandes gênios e parte de minha galeria de ídolos, com sua bela sala, a coleção de revistas National Geographic nos fundos, o seu retroprojetor que um dia, para meu orgulho, ele me deixou manusear e projetar as cenas que escolhera para aquela aula. Tinha ódio de papel almaço; suas provas tinham de ser feitas numa folha dupla de caderno tipo brochura. Eram manias de gênio.

Doutora Matilde Pettine , o título era exigido por ela, e merecido. Era doutora não só em Francês, mas em educação e dedicação aos alunos.

Sua cunhada Lícia, que também me ensinou Francês, possuía gestos calmos e a fala mansa, delicada. Foi a responsável pelo meu gosto por aquela língua. Tem seu nome em uma rua de Campinas, homenagem muito justa. 

D. Auzenda Frattini, com seus indefectíveis óculos tipo “gatinho”, todo pintadinho, e seu DKW reluzente de novo. Fui aluno dela e de seu irmão Amaury, os dois muito exigentes, ele com seus óculos pretos e sempre de terno escuro bem talhado.

Pedro Calazans, aquela aparência séria e compenetrada, reforçada pelo bigodão. Só entrava na classe sob silêncio absoluto. Aguardava no corredor até que não ouvisse mais nem um pio.

Dona Amália dava suas aulas na sala de Ciências, com aquele famoso esqueleto nos olhando, do canto. Lembro-me de que discutia muito com ela, chegava até a desafiá-la, às vezes. Repeti a 3ª série por causa dela. Mas hoje, sem rancores, era uma ótima pessoa.

O Pedrinho e a dona Eclair Faraht, os nossos historiadores. Ele sempre de terno e com aquela barriguinha proeminente e nariz empinado; ela, sempre esguia e elegante, arrancava suspiros de muitos, quando entrava na sala.

O professor Toninho Boiadeiro, dentista e nosso professor de Português. Já se prevenia, aparentemente, do mal que assola hoje os professores, com baixos salários. Até hoje não sei o motivo de seu apelido, mas dávamos a eles tantos apelidos, que até se confundiam com os nomes reais.

Quase ia me esquecendo da dona Maria de Lourdes Pimentel, sempre altiva e elegante.

A dedicada dona Mariinha, que pude ver recentemente numa foto de jornal, junto com o professor Basílio.

O Sílvio, o nosso querido “Pirulito”, em sua sala de artes, fantástica. Quanta coisa fiz lá em suas aulas que, sem dúvida, me despertaram o gosto e a destreza para trabalhos manuais.

O professor Pedro Stucchi Sobrinho era a minha pedra no sapato. Eu odiava Educação Física e ele sabia disso! Só escapei dele, entrando para a fanfarra, por dois ou três anos. Ainda nos brinda com sua presença marcante nos eventos da escola. Posso estar no momento me esquecendo de alguns deles... Mas, com certeza, nunca deixarão de habitar as mentes que nos talharam tão bem, mesmo esquecidos.

 

 


© Carlos Francisco Paula Neto - última atualização em 21/03/2009
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