CARTA AO SECRETÁRIO DE ESTADO DA EDUCAÇÃO ,

SENHOR JOSÉ BONIFÁCIO DE COUTINHO NOGUEIRA

 

       Exmo. Sr. Secretário de Estado da Educação

             A Congregação do Colégio Estadual “ Culto à Ciência ”, depositária de um passado valioso , sente que é seu dever pronunciar-se perante Vossa Excelência e perante a comunidade de Campinas .     

            Na mesma sala em que hoje seus membros se reúnem, sentaram-se, através dos tempos, para tratar de assuntos pedagógicos e culturais, professores dos mais ilustres do Brasil, como Perez y Marin, Otoniel Mota, Carlos Francisco de Paula, Aníbal de Freitas, Benedito Sampaio, Ernesto Kuhlmann. Esse amor que devotaram às ciências e às letras é ponto de honra , para nós, cultivar. Pois devemos e queremos respeitar essa tradição de Magistério.

             Nós não queremos ser educadores sem memória, que pretendamos blasonar-nos de desenraizados; que, fingindo-nos de distraídos, admitamos esquecer o nosso passado. Lembrá-lo sempre e respeitá-lo não significa continuísmo vazio, Senhor Secretário. Porque história e tradição nunca foram sinônimos, como alguns, por detratores, querem entender, de caruncho e velharia. História e tradição nunca foram obstáculos à atualização, a trabalho sério, a idealismo.

             Desprezar o passado não é receita digna para quem tem como meta um trabalho consciente no presente e um anseio de preservá-lo no futuro. Se assim fosse, o nosso estado de São Paulo, para crescer, teria que perder a memória e esquecer-se dos que abriram os primeiros caminhos, como se jamais tivessem palmilhado o seu chão os bandeirantes.

             Nós somos lúcidos, Senhor Secretário. E não estamos defendendo as paredes vetustas do “Culto à Ciência”. Não defendemos o monumento, enquanto pedra e cal. Amamos o espírito que habita entre essas paredes. Somos capazes de beijar, sim, o chão que os nossos antepassados aqui pisaram, porque eles também foram bandeirantes, os bandeirantes da cultura, do amor às letras e às ciências. São os nossos ascendentes no magistério, nós somos sua progênie.

             Mas não permitimos que se criem confusões. Nunca descansamos sobre os louros do passado. Vivemos o nosso tempo, somos lúcidos. Podemos divulgar a nossa formação, o nosso trabalho, a nossa atualização. Podemos expender tudo o que temos construído.

             Neste momento, não cabe modéstia, Senhor Secretário, porque há os que têm pretendido ver em nosso Colégio só o monumento do passado. Nós existimos, somos a Congregação do “Culto à Ciência”. Somos os professores do hoje, que escolhemos o nosso caminho livremente e por isso o amamos. Temos inteira consciência do nosso dever de educadores e o temos cumprido.

             Vossa Excelência encontrará, entre nós, os que são pós-graduados; os que têm obras publicadas; os que têm cursos de especialização em universidades estrangeiras; os que conquistaram belas classificações em concursos de ingresso ao magistério, mesmo primeiros lugares; os que elaboraram teses e prestaram provas em concurso interno, para cadeiras do próprio “Culto à Ciência”, perante bancas constituídas por autoridades do ensino universitário paulista. Vossa Excelência encontrará os que contribuem para o desenvolvimento da tecnologia; de um de nós nasceu a partitura, que ficou sendo, por concurso, o Hino do Centenário de Campinas. Dentre nós há os que preparam os alunos que têm vencido maratonas intelectuais de Português e de Matemática, bem como importantes competições esportivas.

             Tudo isso são sementes que germinam, porque nós queremos ser quais novos semeadores, que preparam o solo com desvelo, afastando urzes e pedras. E é isso que queremos continuar a ser, é só isso, Senhor Secretário. Temos necessidade de plantar e de colher, de ver o fruto de nosso trabalho. Temos necessidade de desafiar-nos, a nós próprios, para ver o de que somos capazes.

             Não podemos assistir, mudos, a que nos despojem da própria essência de nosso trabalho, do barro que se pode modelar, do barro que vivifica. Não podemos ser mercenários. A nós não é indiferente a redução a que nos condenam. Não nos agrada trabalhar como operários especializados, a quem apenas cabe uma breve etapa  na fabricação de uma fria peça. Nós, não! Nós trabalhamos com material humano. Queremos ver aquilo que estamos criando. Amamos os nossos alunos.  Queremos trabalhar com eles como quem esculpe, como quem plasma. Não queremos apenas alunos em trânsito. Que tempo poderemos ter, se nos restarem só alunos de fim de curso, arribados de outras escolas?

             Por essas razões, pedimos a Vossa Excelência conserve o primeiro grau do “Culto à Ciência”, para que o nosso Colégio não se desfigure, continue a espelhar o Ginásio de outrora, continue a honrar o seu passado.  Amplie as nossas incumbências, sempre que houver por bem. Não as mutile. Rogamos a Vossa Excelência ouça a nossa voz. E, se bem atentar, sentirá que ela não é só nossa. A ela se somam as vozes das primícias, as vozes que ressoaram _ e que nos falam ainda, num milagre de amor _ por estas salas de aula, pelos corredores e pelos pátios, de todos os que, antes de nós, dedicaram a melhor parte de suas vidas ao “Culto à Ciência”. Mesmo que, por omissão e comodismo, nos calássemos, quem seria capaz de silenciar essas outras vozes dos que nos legaram o magistério?

             A Congregação do Colégio Estadual “Culto à Ciência” agora se pronuncia. Já se divulgou que quatro colégios campineiros, irmãos que respeitamos, tiveram mantidos primeiro e segundo graus. Nós rogamos a Vossa Excelência que, equânime, mantenha primeiro e segundo graus em nosso colégio. Pedimos que considere o nosso pronunciamento, a que nos dá direito a nossa autonomia.

               Nada tem a ver com nossos anseios a incrustação de um ginásio estranho, com outro nome e sob outra direção, dentro de nossos muros. Abrimos mão dessa oferta que nos fazem. Não queremos compensações.

              Queremos, sim, que esse prédio novo mantenha o nome de “Culto à Ciência” e se integre, não só no seu terreno, não só materialmente, mas na própria alma do “Culto à Ciência”, como reconhecimento do passado, como resposta aos anseios do presente, para orgulho de toda Campinas.

 

                              Contamos com Vossa Excelência.

                             Em nome da Congregação,

                                            Joaquina Elisa R. S. de Melo Serrano

Campinas, 1975  


© Carlos Francisco Paula Neto - última atualização em 21/03/2009
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